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Pandemia e buzinaço

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em-vindo ao século XXI, ele acabou de chegar. As eleições presidenciais de 2018 abriram crateras imensas do Chuí ao Oiapoque como as relatadas em ‘As veias abertas da América Latina’ (livro)*. Olhar para o cenário mundial e para o brasileiro é assustador. Mais assustador é percebermos pequenas células espalhadas pelo território nacional manifestando o anseio pela abertura do comércio e retorno das atividades não essenciais. O interessante é que todos os movimentos sociais ao redor do mundo sempre usaram às ruas como espaço de reivindicação de direitos, e praticamente sempre através de manifestantes caminhando por grandes avenidas ou por apenas ruas e praças em dias normais de trabalho. Entre os objetivos, o maior era chamar atenção da sociedade para as questões complexas que envolvia cada anseio por direitos daqueles movimentos organizados. Seja pelos direitos dos negros, índios, moradia, por melhores salários, por redistribuição de terra, por igualdade entre homens e mulheres, etc. Em tempos de pandemia, o veículo se tornou o corpo do indivíduo nas manifestações em vários pontos do mundo como também aqui no Brasil. Para a pessoa “pequena”, ela entra no automóvel e torna-se algo grandioso, poderoso. Ganha uma lataria, um motor, uma sinalização e, por fim, um status. Esse status está ligado diretamente ao seu corpo e suas próprias realizações. Há um quê de superioridade em relação ao outro.

Enquanto a Organização Mundial de Saúde- OMS e toda a comunidade científica do mundo orienta os mecanismos de prevenção do comportamento humano para controle da pandemia, temos ao reverso nessas pequenas células espalhadas pelo Brasil deflagrando o discurso conservador, homofóbico e racista do Presidente da República. Estamos literalmente em outros tempos, outra era e outras conexões celebrais.

O automóvel virou o manifestante e a buzina sua voz. Enquanto o mundo caminha para a solidariedade, mudança de hábitos e comportamentos, temos nas ruas a concretização do ódio através de ataques diretos às instituições constituídas democraticamente. O que vemos é um total desconexo de discurso com comportamentos agressivos. Enquanto uma comunidade se constitui e é eleita berço da solidariedade e voluntariado, vemos nas suas próprias ruas pessoas deflagrando o ódio e buzinando insensatamente palavras de ódio. Como compreender que essas mesmas pessoas trabalham em prol de um hospital e ao mesmo tempo apoiam ataques aos servidores da saúde? Como aceitar invasão aos hospitais por pessoas inerentes aquele serviço? Realmente, chegamos ao século XXI. Nele o discurso de ódio prepondera. Trilhamos décadas e séculos para nos tornarmos humanos, solidários e éticos. Em um piscar de olhos, um gatilho é disparado e todo o ódio acumulado geneticamente se sobrepõe e se manifesta através de pequenas células de uma classe “média pobre” que age totalmente na contramão da realidade. Com aproximadamente 45 mil mortes na data de hoje, o Brasil sobe no ranking de mortes mundialmente. Mas, “E daí? Não sou coveiro.” Aguardaremos. Quando o próximo a falecer for um ente querido, pode ser que a “turma do buzinaço” comece a perceber o quão paradoxo se tornou seu comportamento se comparado com suas ações de voluntariado. Evoluímos séculos e voltamos aos tempos arcaicos da humanidade. (* AS Veias Abertas da América Latina – Eduardo Galeano. 1977. Editora: L&PM).

Graciandre Pereira Pinto

 -  Advogada OAB/ES 11838

Pós-graduada em Direito Civil e Processual

graciandrepp@gmail.com 

(28) 9 9922-6353

- Venda Nova/ES 

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