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Polenta Off Road - Do manual ao sistema digital

Polenta Off Road - Do manual ao sistema digital

Como o Trail Clube Mata Atlântica esteve na vanguarda da apuração das competições de regularidade no Brasil

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Eduarte Moreira está entre os voluntários que testemunharam o nascimento e a evolução do Enduro da Polenta. Naquela época, quando ainda havia pouca gente envolvida na organização, cada um fazia o que fosse necessário. Eduarte, por exemplo, ajudava Vânio Cleto Altoé na preparação da trilha. Antes mesmo da competição acontecer, era preciso conversar com os proprietários das terras por onde os pilotos passariam e, depois, realizar a limpeza dos percursos.

Nos primeiros anos, Eduarte também integrou a equipe dos Postos de Controle (PCs), função que mobilizava dezenas de voluntários- muitas vezes pessoas que só participavam do enduro justamente nessa fase do evento.

“Lembro quando o padre Cleto implicou com a largada descendo pela escada frontal do prédio do Salesiano. Mas depois ele voltou atrás e tudo deu certo”, recorda, ao falar dos primeiros tempos da competição.

Para Eduarte, um dos maiores legados do evento foram as amizades construídas ao longo dos anos, especialmente com pilotos e organizadores vindos de outros estados. Em muitos casos, essas relações ultrapassaram o ambiente esportivo e se transformaram em parcerias importantes para o crescimento do enduro. “Teve o caso do Edmilson, que começou competindo e hoje faz levantamento de prova”, conta.

Ele também relembra a importância de Robson Luiz Brioschi, o Bim, um dos nomes centrais na estruturação do evento e na modernização do sistema de apuração. “O Daniel Ventorim desenvolveu um programa, mas era necessário comprar os equipamentos para digitalizar a planilha de bordo e os dados coletados nos PCs. Foi uma tecnologia criada aqui e que colocou o Trail Clube Mata Atlântica na frente de praticamente todos os enduros do Brasil”, destaca.

Segundo Eduarte, o investimento permitiu que o TCMA passasse a realizar apurações de provas em vários estados brasileiros. Além disso, Bim viajava para competir e aproveitava para dar carona para os colegas e transportar a equipe organizadora nas viagens de divulgação e prestação de serviços. Mais tarde, o TCMA comprou um ônibus e todos viajavam juntos.

“Em uma dessas viagens conhecemos o Sandro Hoffmann, de Itarana, que ainda estava começando a competir e viria a se tornar campeão brasileiro. Hoje ele é praticamente um vendanovense”, relembra.

 

O tempo dos tambores de gasolina e das grandes equipes

Rodrigo Falqueto também acompanhou de perto essa fase histórica. Presente desde a primeira ata de organização do Enduro da Polenta, ele participou ativamente da estruturação do evento.

“As reuniões aconteciam no salão da antiga Câmara. Fui voluntário por muitos anos e só deixei de atuar quando o sistema de apuração foi digitalizado e as demandas ficaram mais enxutas”, conta.

Entre suas atribuições estava uma tarefa fundamental para a época: o reabastecimento das motos durante a prova. Como os tanques tinham pouca autonomia, Rodrigo transportava um tambor de 200 litros de gasolina, acondicionado na carroceria de uma caminhonete, permanecendo em pontos estratégicos do percurso.

O serviço se tornou necessário quando o Enduro da Polenta passou a ter percursos mais longos e duração de dois dias. Mais tarde, a própria organização ajustou os trajetos para que os pilotos passassem próximos a postos de combustível nos momentos em que os tanques começavam a esvaziar, tornando o apoio móvel desnecessário.

Na fase em que os PCs exigiam presença física, o evento mobilizava um grande número de pessoas. Rodrigo lembra que os sorteios realizados na Pizzaria Monte Grappa, na sexta-feira anterior à prova, já eram considerados uma grande confraternização.

“Nos dias anteriores os responsáveis pelos PCs já sabiam onde trabalhariam. O Valério, o Juca, o Edésio, ou outro integrante da organização, mostrava para cada um o seu ponto de atuação”.

Rodrigo também acompanhou a transformação da planilha de bordo manual para o sistema digital. Na época, o roteiro entregue aos pilotos continha desenhos que representavam bifurcações, cruzamentos e referências visuais, acompanhados da distância exata em metros e do tempo necessário para atingir cada ponto do percurso.

Com a modernização, tanto as planilhas quanto a coleta de dados nos PCs passaram a ser digitais, tornando o processo de apuração muito mais rápido e preciso.

Segundo Rodrigo, quando a Honda lançou a XR 200, o Enduro da Polenta já era o único evento do Brasil a operar com sistema digital de apuração. A inovação chamou a atenção da fabricante, que contratou o TCMA para prestar o serviço em todas as etapas da Copa XR. Mais tarde, porém, esse sistema acabou se tornando obsoleto com a chegada do GPS às competições.

 

O investimento que ajudou a transformar o TCMA em referência nacional

Robson Luiz Brioschi, o Bim, também acompanhou toda essa transformação desde os primeiros passos do movimento que deu origem ao Enduro da Polenta e ao próprio Trail Clube Mata Atlântica. “Em 1989 comprei uma moto e comecei a fazer trilha com Vânio Cleto e Marco Camilo. Acompanhei a criação do Enduro da Polenta e vi o TCMA nascer”, recorda do começo.

Ao longo dos anos, Bim atuou em diversas frentes: trabalhou nos PCs, transportou equipes, auxiliou na apuração e mais tarde viabilizou o deslocamento dos organizadores para prestar serviços em competições pelo Brasil afora.

Ele confirma que emprestou recursos financeiros para a compra dos primeiros equipamentos eletrônicos, investimento que foi devolvido após a contratação do TCMA pela Honda para atuar na Copa XR.

“Quando adquirimos os coletores digitais de dados ainda não existia um programa específico. O Daniel Ventorim desenvolveu o sistema, que depois foi utilizado em todo o país pela Copa XR. A Honda acabou patrocinando a compra dos equipamentos. Eu apenas antecipei os recursos”, explica. Ele se recorda que a primeira apuração foi em Colatina, quando a experiência foi difícil, mas deu tudo certo no final.

Com o casamento e, posteriormente, o nascimento do primeiro filho, Bim acabou se afastando das competições. “Tentei voltar, mas não consegui mais”, admite.

Entre as melhores lembranças, ele destaca justamente as viagens realizadas pelo Brasil. Além da equipe técnica responsável pelas apurações, os deslocamentos também levavam voluntários e pilotos amadores de Venda Nova, que se aventuravam a participar da Copa XR mesmo sem experiência competitiva.

Bim e toda a sua família estiveram profundamente envolvidos no apoio ao Enduro da Polenta. Durante alguns anos, eles limpavam o casarão antigo da família na Tapera para acolher vários competidores, que traziam colchões e roupas de cama. Essa e outras iniciativas, os tornaram um dos pilares fundamentais para que a competição alcançasse o tamanho do atual Polenta Off Road, evento que agora entra em sua fase internacional.

 

Histórias do tempo dos Postos de Controle

Algumas histórias já fazem parte do folclore do Polenta Off Road, evento que nasceu como Enduro da Polenta e, durante um período, passou a se chamar Enduro Nacional da Polenta. Boa parte dessas curiosidades vem justamente dessa primeira fase, quando o controle de pontuação e o registro do tempo da competição eram feitos manualmente, por meio dos Postos de Controle, popularmente conhecidos como PCs.

Os pontos secretos, divulgados apenas na planilha ou no roteiro de navegação entregue aos pilotos, iam sendo revelados ao longo do percurso, quando os competidores se deparavam com os voluntários- geralmente trabalhando em dupla- responsáveis pela cronometragem.

No enduro de regularidade, cada segundo de atraso ao passar por um PC gera pontos de penalização, normalmente um ponto por segundo. Já o adiantamento costuma ser ainda mais penalizado, podendo chegar a três pontos por segundo adiantado. Ao final, vence a prova quem somar o menor número de pontos, ou seja, quem cometer menos irregularidades.

Andressa Bernabé fez parte desse grupo de voluntários recrutados todos os anos para atuar nos Postos de Controle. Durante 25 anos, ocupou um dos PCs. Na primeira metade desse período, trabalhou ao lado da irmã e, mais tarde, do então namorado- hoje seu esposo.

“Participávamos de reuniões com os organizadores- entre eles Edésio Zavarize, Carlinhos Minet, Vânio Cleto e Marco Grillo- que repassavam todas as instruções gerais”, relembra.

Normalmente, a organização destinava às mulheres os pontos de mais fácil acesso, alcançados de carro ou com pequenas caminhadas por plantações e beiras de estrada. Já os locais mais difíceis, geralmente no meio das matas, ficavam para os homens que possuíam moto e experiência em pilotagem.

Andressa começou a participar no início dos anos 1990 e só deixou a função quando o sistema foi modernizado, eliminando a necessidade da presença física nos Postos de Controle. “Tudo era anotado manualmente. Precisávamos de muita atenção, porque não podíamos perder sequer um segundo no relógio”, conta.

Ela também se recorda de que os pilotos colavam a planilha na perna ou na moto e que, para deixar a prova ainda mais desafiadora, ela e a pessoa com quem formava dupla costumavam permanecer meio escondidas nos PCs.

“Muitas vezes eles só percebiam nossa presença depois de passar pelo ponto, ou então ficavam na dúvida se realmente tinham passado por um PC. Apesar de tudo estar descrito na planilha, nossa presença também ajudava na orientação dos pilotos”.

O trabalho em dupla era essencial para garantir a precisão dos registros. “Enquanto uma pessoa observava o horário exato, a outra anotava as informações com o máximo de exatidão. Depois, entregávamos tudo para a organização no final da prova”.

Para Andressa, apesar da grande responsabilidade, participar do evento era motivo de orgulho e alegria. “Eu me sentia parte de algo importante. Algo que começou pequeno e se transformou em algo grandioso, sempre fazendo diferença para a comunidade. Também havia muitas brincadeiras. Uma vez, por exemplo, recrutaram um grupo de meninas para ficar em falsos Postos de Controle e confundir os pilotos. E ainda tínhamos os momentos de confraternização, com festas, encontros e muitas trocas boas”.

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