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Sucessão familiar e inovação pautam Dia de Campo com cafeicultores em Conceição

Sucessão familiar e inovação pautam Dia de Campo com cafeicultores em Conceição

Encontro promovido pelo Sicoob Sul-Serrano reuniu mais de 100 produtores rurais em São José da Bela Vista para discutir cenários econômicos, tecnologias na cafeicultura e estratégias para incentivar a permanência dos jovens nas propriedades

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Para discutir o futuro da cafeicultura e de qualquer atividade econômica no meio rural é fundamental colocar em pauta a sucessão familiar. Esse foi um dos temas abordados no ‘Encontro com os Produtores Rurais – Do plantio à Colheita, Compartilhando Conhecimentos’, realizado no dia 5 de março, na comunidade de São José da Bela Vista, no município de Conceição do Castelo.

O encontro foi promovido pelo Sicoob Sul-Serrano, em parceria com o Ifes Campus Venda Nova, Incaper e Senar, e reuniu 105 produtores, que participaram de quatro estações temáticas. Antes das atividades de campo, Émerson Guimarães Rocha, gerente regional do Sicoob Sul-Serrano, abriu a programação com a palestra ‘Cenário Econômico 2026 e Impactos na Cafeicultura’.

A partir das 9 horas, os participantes seguiram para as estações: ‘Nota Fiscal Fácil: Regularização Simples e Segura’ (Faes, Senar e Sindicatos); ‘Importância da Irrigação para a Sustentabilidade na Cafeicultura’ (Incaper); ‘Planejar, Investir e Proteger: o Ciclo da Safra Segura’ (Sicoob); e ‘Sucessão Familiar e a Participação do Jovem na Gestão Inteligente da Propriedade’ (Ifes). Após o almoço, a programação foi encerrada com a apresentação “Tecnologias de Pós-colheita no Desenvolvimento da Propriedade Cafeeira”, ministrada por Aldemar Polonini Moreli, professor e pesquisador do Ifes Campus Venda Nova do Imigrante.

Entre os desafios apontados, o presidente do Sicoob Sul-Serrano, Cleto Venturim, destacou a necessidade de criar condições para que os jovens permaneçam ou retornem às propriedades após a formação acadêmica. “Em um evento como este, aproveitamos para fazer esclarecimentos importantes, apresentar caminhos para tornar o campo mais produtivo e capaz de proporcionar qualidade de vida, além de estimular o diálogo entre as gerações para que os filhos sejam, de fato, a continuidade da produção rural”, afirmou.

O tema da sucessão familiar foi abordado na estação conduzida por Alice Dela Costa Caliman e Tainara de Souza Fim, graduadas em Ciência e Tecnologia de Alimentos pelo Ifes Campus Venda Nova do Imigrante e certificadas como Q-graders, título concedido a provadores profissionais capacitados para avaliar a qualidade de cafés de acordo com protocolos internacionais.

Ambas integram o Coffee Design Group, grupo de pesquisa dedicado ao estudo científico da qualidade do café, sediado no Ifes. O grupo desenvolve pesquisas voltadas para a qualidade e a inovação na cafeicultura, integrando áreas como biotecnologia, química e análise sensorial para aprimorar os processos de produção e pós-colheita do café. Suas atividades contam com parcerias institucionais e apoio de diferentes entidades, entre elas o Sicoob Sul-Serrano, que contribui com bolsas para estudantes envolvidos nas pesquisas.

Todo o conhecimento produzido pelo grupo é compartilhado com a realidade dos produtores da região e de todo o Espírito Santo. Durante a palestra, as pesquisadoras falaram sobre sucessão familiar usando como exemplo as próprias experiências e a de colegas que passaram pelo Ifes, participaram do grupo de pesquisa e hoje desenvolvem projetos nas propriedades das famílias, representando as novas gerações na cafeicultura.

“Diferentemente das gerações anteriores, nós estamos estudando para permanecer no campo”, afirmou Alice Caliman. Ela destacou o quanto a atividade rural tem evoluído e como o trabalho desenvolvido no Ifes tem contribuído para que filhos e netos de produtores transformem a produção de cafés especiais em um caminho para melhorar a qualidade de vida no meio rural, unindo inovação e experiência.

O desafio é ainda maior quando, na linha sucessória, as mulheres assumem esse papel, como ocorre com as duas palestrantes, que, mesmo em famílias com outros herdeiros, passaram a atuar diretamente na gestão das propriedades ao lado dos pais. No diálogo entre as especialistas, Tainara também destacou a disponibilidade dela e dos demais integrantes do Coffee Design para colaborar com esse processo, além de contribuir com aspectos técnicos do pós-colheita nas propriedades.

Entre os interlocutores, a atenção ao tema era evidente. Valério Faé Fuzer, produtor rural da localidade de Alto Montevideu, falou de sua experiência de ter trabalhado fora como fiscal da Vigilância Sanitária no quadro da Prefeitura de Conceição do Castelo e de seu retorno à propriedade depois de 22 anos fora. “Percebi que muitas vezes a caneta é muito mais pesada do que a enxada. Dei uma pausa, estou cuidando da propriedade e hoje estou mais feliz. Enxerguei que era preciso começar a sucessão e ter boa vontade de estar perto da família”.

Aos 44 anos, agora licenciado como funcionário público municipal, ele pretende, além de cuidar mais de perto da família, estruturar melhor a propriedade. “Antes de voltar para terminar minha carreira, vou deixar uma boa estrutura no sítio para, quando me aposentar, contar com ele mais organizado. Quando a gente sai muito cedo de casa e não dá seguimento, ao retornar aposentado precisa montar um sítio que poderia ter estruturado antes. Optei por voltar, descansar a mente, pois a fiscalização pública é bem desgastante. Esse regresso para onde nasci, passei minha infância e cresci é um ambiente mais salubre, mais tranquilo. E trabalho no que gosto”.

Durante a palestra, as especialistas também chamaram a atenção das famílias para a importância de incentivar os filhos, ainda na infância e na juventude, a participarem das atividades da propriedade, ressaltando a necessidade de diálogo. “Sabemos das dificuldades de trabalhar no sol ou na chuva, da instabilidade financeira, das incertezas climáticas e do medo que os pais têm de os filhos passarem pelas mesmas dificuldades. A nova geração tem mais acesso à informação e à tecnologia, o que pode facilitar a vida no campo”, destacaram.

As palestrantes também apontaram a resistência de algumas famílias em aceitar a visão dos mais jovens, preferindo manter os métodos tradicionais de condução da propriedade. Segundo elas, essa postura muitas vezes leva os filhos a desistirem de permanecer no campo.

Outro fator citado como dificultador da permanência dos jovens é a baixa rentabilidade do trabalho rural, que limita recursos para lazer e qualidade de vida. A escassez de mão de obra e os atrativos da vida urbana também contribuem para esse cenário. Por outro lado, novas tecnologias- especialmente no pós-colheita- têm se mostrado eficientes e já transformaram a realidade de jovens egressos do próprio Ifes que participaram do Coffee Design e aplicaram essas inovações nas propriedades das famílias.

Para Cleto e para o professor Aldemar, coordenador do Coffee Design, todo o conhecimento compartilhado no evento contribui para facilitar o trabalho dos produtores. No entanto, eles ressaltam que a permanência das novas gerações no campo é fundamental para que os avanços tecnológicos e as oportunidades de capitalização realmente promovam o desenvolvimento pleno da atividade rural, especialmente na cafeicultura.

 

Tecnologia no campo: Ifes apresenta descascador de café a seco e portátil

A programação da tarde do encontro trouxe uma demonstração prática de inovação voltada diretamente para o dia a dia do produtor rural. O professor Aldemar Polonini Moreli, do Ifes Campus Venda Nova do Imigrante, apresentou aos participantes um descascador de café a seco e portátil desenvolvido pelo Coffee Design Group, grupo de pesquisa da instituição.

O equipamento é resultado de um projeto que vem sendo desenvolvido há mais de um ano. A iniciativa já havia sido mencionada durante o encontro   realizado na mesma comunidade no ano anterior, quando ainda estava em fase de testes. Agora, a tecnologia começa a ganhar forma concreta e a chegar aos produtores.

O desenvolvimento do descascador foi possível graças à parceria entre o Ifes e o Sicoob Sul-Serrano, que apoia e mantém projetos de pesquisa do Coffee Design Group. A proposta do equipamento é simples e inovadora: permitir descascar os grãos de café sem a necessidade de água e com mobilidade dentro da propriedade.

Além de funcionar a seco, o descascador foi projetado para ser facilmente transportado. Segundo o professor Moreli, o equipamento pode ser levado para diferentes pontos da lavoura com grande praticidade. “Basta amarrar no bagageiro da moto e levar para qualquer ponto estratégico da propriedade. Como não precisa de água, ele também não depende de estar próximo a uma fonte de abastecimento”, explicou.

Outro benefício é o aproveitamento da casca retirada durante o processo. O resíduo pode permanecer no próprio local de uso e ser reaproveitado como adubo, contribuindo para reduzir impactos ambientais e fortalecer práticas mais sustentáveis na produção.

O equipamento é equipado com um motor a gasolina, cuja manutenção é simples: a troca de óleo pode ser feita apenas ao final da safra, normalmente uma vez por ano. O maquinário também possui regulagem que permite adaptar o funcionamento para diferentes tipos de café. Além disso, dois dos modelos desenvolvidos já podem ser acoplados ao trator.

Durante a apresentação, o professor destacou que cerca de 100 unidades do modelo demonstrado no Dia de Campo já foram produzidas. “Pensamos em algo que realmente facilitasse o dia a dia do produtor. Nosso propósito é colaborar com soluções práticas e ajudar a resolver parte dos problemas ambientais”, afirmou.

Ele também ressaltou que o trabalho do Ifes vai além do desenvolvimento tecnológico. “Nós trabalhamos para levar conhecimento ao campo e formar jovens com capacidade empreendedora e inovadora”, disse.

Antes de demonstrar o funcionamento do equipamento, Moreli reforçou que o Coffee Design Group atua em parceria com os produtores para entender suas necessidades reais. “Com o apoio do Sicoob, buscamos nos aproximar das propriedades e sentir as dores dos produtores. Nosso objetivo é ensinar a desenvolver tecnologias de baixo custo, aproveitando ao máximo os recursos que vocês já possuem, ocupando menos espaço e tornando o trabalho mais eficiente”.

Segundo ele, muitos dos estudantes envolvidos nas pesquisas também são filhos de produtores rurais e participam ativamente da rotina das propriedades. Essa proximidade permite que levem demandas concretas para dentro do Ifes, transformando desafios do campo em soluções tecnológicas e se tornando multiplicadores de conhecimento nas comunidades rurais.

 

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