
Haydê Lourds Feitosa Perim: memória, traços e pioneirismo
Desenhista habilidosa, ela contribuiu para a evolução da arquitetura na cidade, foi uma ativista no voluntariado e deixou um legado para a cultura de Venda Nova do imigrante
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Às vésperas do Dia Internacional da Mulher, a revista abre espaço para falar de Haydê Lourds Feitosa Perim, popular Dona Haydê. Ela, que foi mais do que uma mulher de seu tempo: foi visionária, solidária, criativa e profundamente comprometida com a comunidade.
Ela faleceu no dia 9 de janeiro de 2026 e, pelo seu legado, sabemos que a sua trajetória vai permanecer viva na história, seja através de sua contribuição na modernização das construções de Venda Nova, na evolução das instituições filantrópicas e culturais da cidade e, sobretudo, na memória afetiva de todos que tiveram o privilégio de conhecê-la ou de colher os frutos de seu trabalho incansável.
Raízes e formação
Filha de Antônio Roberto Feitosa e Brígida Bernabé, Haydê Lourds Feitosa Perim nasceu em 19 de novembro de 1929, na Fazenda do Centro, em Castelo. No mesmo local nasceram também seus irmãos José Anchieta e Joel Roberto. Anos depois, a família se estabeleceria em Venda Nova, onde nasceram Carmem, Isabel, Máximo e Leandro - território que se tornaria o principal cenário de sua vida, de suas experiências e de um legado que atravessa gerações.
A mudança para Venda Nova ocorreu quando Haydê tinha apenas seis anos de idade. Foi ali que ela iniciou os estudos na Escola Singular de Venda Nova (atual Escola Domingos Perim), instituição que marcaria profundamente sua infância. Desde cedo, demonstrava disciplina, curiosidade e gosto pelo aprendizado. Aos 11 anos, deixou a cidade para estudar em regime de internato no Colégio Cristo Rei, em Cachoeiro de Itapemirim, uma decisão incomum para meninas de sua geração.
Em 1947, com apenas 17 anos, Haydê casou-se com Olímpio Perim. Da união nasceu uma família numerosa: sete filhos (Domingos Roberto, Carlos Alberto, Luiz Carlos, Antônio Marcos, José Ângelo, Olímpio Perim Júnior e os gêmeos Marcelo - falecido com sete dias - e Mirian - falecida aos 14 anos, num trágico atropelamento) criados sob forte estímulo ao estudo, à responsabilidade e ao compromisso com a coletividade. Mulher à frente de seu tempo, ela conciliou a maternidade com uma atuação ativa na vida comunitária, ampliando sua presença muito além do espaço doméstico.
O desenho como vocação
Na adolescência, ainda no Colégio Cristo Rei, Haydê aprimorou uma habilidade que a acompanharia por toda a vida: o desenho. Já nos anos 1960, quando Venda Nova ainda era vila, seu perfil destoava dos padrões da época. Jovem, casada e mãe, aproximava-se do que hoje se reconheceria como uma profissional da área de arquitetura. Colocou seus dons a serviço da comunidade, desenhando plantas de casas para os moradores locais.
À época, as residências construídas pelas famílias de imigrantes italianos seguiam um modelo quase padronizado: quartos dispostos ao redor de uma grande sala central. O interesse de Haydê pelo tema era alimentado pelas revistas que recebia por assinatura, presente do marido Olímpio, nem sempre entusiasmado com atividades que extrapolassem os cuidados com o lar e os filhos.
Em conversas com Haydê e seu filho Luiz, engenheiro civil, surgiram memórias que remontam à década de 1950. A família morava num casarão na avenida central e estava entre as poucas de Venda Nova que hospedavam visitantes ilustres, como religiosos, políticos e empresários. Entre eles, os proprietários da empresa responsável pelas obras da BR-262, integrantes da família Mayer, arquitetos que atuavam na Bahia. Como gesto de reconhecimento, prometeram enviar um projeto arquitetônico de presente ao casal.
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A casa que antecipou o futuro
O projeto chegou no início dos anos 1960. A casa (onde ela morou até o falecimento) foi construída com tijolos produzidos na olaria de Olímpio, localizada em seu sítio na Providência, onde hoje existe o loteamento que originou o bairro que leva seu nome. A edificação erguida ao lado do casarão onde moravam representou um avanço significativo para a época e, ainda hoje, chama atenção pela distribuição funcional dos espaços: áreas sociais, de convivência, de trabalho e íntimas bem definidas.
Segundo os cálculos de Luiz, a obra foi concluída ainda no início da década de 1960. “Os arquitetos vieram duas vezes a Venda Nova. A casa inaugurou o sistema de separação de ambientes: área social, cozinha e serviço, e a área de repouso, com os quartos”, recorda. Haydê desenhou os móveis: estantes com bar embutido, mesa de peroba com banco inteiriço de canto e tamboretes, peças que permanecem em uso na casa ainda mantida pelos filhos.
Para executar os projetos, Haydê firmou parceria com Arvelino Brunelli, marceneiro da Serra da Povoação, em Castelo. Ele foi responsável por transformar os desenhos dela em realidade. Armários de cozinha modernos, com escorredores de pratos embutidos sobre a pia, estavam entre as soluções funcionais que ela idealizou. Muitas dessas experiências passaram a ser replicadas em novas residências da cidade.
Outra inovação veio com a construção da primeira lareira de Venda Nova. A casa já estava pronta quando Haydê decidiu que o clima frio da região justificava o investimento. Insistiu tanto que convenceu o marido. Viajou ao Rio de Janeiro levando um construtor para ver de perto uma lareira já pronta. Ela contou, sorrindo, que Olímpio, embora resistente a muitas ideias no início, acabava cedendo e apoiando suas iniciativas.
O escritório que mudou a forma de construir
Em 1980, Luiz Feitosa Perim já era engenheiro formado e retornou de Brasília ao Espírito Santo para assumir uma vaga como professor na Ufes. Enquanto aguardava a liberação da universidade, decidiu passar um período em Venda Nova. Nesse intervalo, foi convidado para assumir a Secretaria de Obras da Prefeitura de Conceição do Castelo, município do qual Venda Nova era distrito, durante a gestão de Benjamim Falchetto.
Estimulado desde sempre pela mãe a valorizar os estudos e o planejamento urbano, Luiz decidiu apoiar o trabalho de Haydê. Juntos, criaram o “Atelier de Desenho”, conforme registrado na caderneta de anotações do que se tornaria o primeiro escritório de arquitetura e engenharia de Venda Nova. Haydê era responsável pela concepção dos projetos; Lúcia Altoé, técnica em desenho, fazia os trabalhos em nanquim; Máximo Feitosa, irmão de Haydê, cuidava da parte burocrática; e Luiz assumia a responsabilidade técnica.
Sob a batuta de Haydê, o escritório pioneiro desenvolveu projetos completos de residências, reformas, capelas e promoveu a regularização de três loteamentos (de Egídio Zandonade, José Altoé Sobrinho e Ângelo Pianissolla) algo bastante avançado para a época. Ozani Moura, topógrafo do DNER, também deu suporte técnico aos trabalhos.
Com a aprovação da Lei Federal nº 6.766, surgiram novas exigências para a criação de loteamentos. Em Venda Nova, muitas áreas urbanas já estavam consolidadas, sem espaço para praças ou áreas públicas e com construções fora dos padrões legais. Luiz organizou um levantamento técnico e elaborou um documento que foi acatado pelo Judiciário, possibilitando a regularização e a escrituração dos imóveis.
Para viabilizar muitos projetos, Luiz frequentemente não cobrava pelos serviços de legalização junto ao Crea, repassando apenas as taxas obrigatórias. “Muitas vezes desenhávamos as plantas existentes apenas para fazer as ARTs. A maior parte do trabalho foi voluntária”, relembra.
O novo modo de construir, porém, enfrentou resistências culturais. Havia rejeição ao uso de corredores, considerados desperdício de espaço. “Os hábitos das famílias foram mudando. As pessoas já não dormiam todas no mesmo horário, e passou a ser importante ter uma ala reservada aos quartos. Também conseguimos eliminar o costume de banheiros com saída pela cozinha. Foi um processo pedagógico”, conta Luiz.
Ele também recorda um episódio marcante, quando o então pároco padre Emílio liderou uma campanha de renovação das igrejas, o que resultou na demolição da Matriz da sede de Venda Nova, da igreja do Alto Caxixe e da de Bela Aurora. A igreja do distrito de São João foi demolida por outros motivos. Preocupada, Haydê elaborou o projeto da nova igreja da comunidade de Bela Aurora.
Sempre defensores da preservação do patrimônio arquitetônico - ideia pouco valorizada à época - mãe e filho participaram de projetos de diversas igrejas e também adquiriram uma antiga casa, que foi desmontada e reerguida no bairro Vila da Mata. Outro exemplo desse cuidado com a memória arquitetônica é o atual restaurante do Alpes Hotel.
Memórias da escola e da infância
Haydê ingressou na Escola Domingos Perim aos seis anos de idade e ali estudou até os 11, antes de seguir para o internato em Cachoeiro. Nos seus últimos anos de vida, ele guardava lembranças vivas da instituição. “Era uma escola linda, em estilo colonial, com paredes brancas, janelas azuis e um varandão na frente”.
Ao chegar a Venda Nova, percebeu surpresa que muitos colegas falavam o dialeto italiano. “A maioria das crianças falava o dialeto, assim como seus pais”, lembrou Haydê, cuja família se comunicava em português.
O uniforme das meninas consistia em saia pregueada vermelha, camisa branca e gravata também vermelha. A cada série concluída, uma pequena tira era costurada na gravata. Nos dias frios, os agasalhos eram simples casaquinhos de flanela. Não havia calças compridas nem meias, e muitos alunos iam descalços para a escola.
Acrescenta-se a estas observações feitas por Haydê, que o material escolar era modesto: cartilha, caderno, lápis e borracha. Crianças que moravam mais longe levavam os pertences em embornais; as mais favorecidas usavam pastas de couro. Haydê tinha uma pasta de tecido costurada pela mãe, de quem se lembrava com carinho: “Minha mãe costurava muito bem”.
No recreio, as brincadeiras de roda e de pique ajudavam a aquecer o corpo. Às vezes, as professoras ensaiavam cantos, geralmente hinos escolares. As merendas vinham de casa: bolo, pão, frutas, milho ou batata-doce cozidos. Em algumas ocasiões, famílias levavam frutas para complementar a alimentação dos alunos.
Desde pequena, além de desenhar, Haydê gostava de escrever. Exercícios de caligrafia eram comuns, e ela se dedicava com prazer. “Era um capricho só. Eu gostava muito de ir à escola, participava de tudo”, dizia, sorrindo.
Haydê frequentou a escola num tempo em que piqueniques também faziam parte da rotina escolar. A professora escolhia locais próximos, debaixo de árvores, em propriedades vizinhas, para que todos pudessem ir a pé. Cada aluno levava sua merenda, e os proprietários recebiam as crianças com carinho.
Segundo suas lembranças, a família de Domingos Perim, que viria a ser seu sogro, hospedou a maioria das professoras da época, entre elas Ormi Rocha, que também foi sua professora.
Entre os colegas de escola, Haydê ainda se lembrava de nomes como José Rocha, Rosa Pagotto, Dalvina Pagotto, Adelino Pagotto e Olímpio Perim, com quem ficaria noiva e, mais tarde, se casaria, dando início a uma história que se entrelaçou profundamente com a formação urbana, social e cultural de Venda Nova.
Na Fazenda do Centro
Haydê passou a primeira infância na Fazenda do Centro, comunidade onde o pai tinha uma farmácia e era dono do burro Brasil, que fora comprado no Rio de Janeiro e que veio de trem até Castelo. Seu pai trabalhou no Hospital do Exército e era manipulador de remédios. “Ele era amulatado e minha mãe branquíssima, descendente de trentinos”, descrevia Haydê.
A família morava em frente ao casarão e no lugarejo também morava o senhor Júlio Torres, um comerciante português, cujo comportamento estimulou Antônio Roberto a se mudar para Venda Nova. “Algumas mulheres chegavam na vila montadas sentadas de lado no cavalo, utilizando um *cilhão, e amarravam seus animais num bambuzal. Ele mexia com elas e seus esposos reclamaram com meu pai, que foi falar para o Júlio não se comportar daquela forma. Ele desdenhou de meu pai, que deu um tapa nele, na presença do padre Máximo Taboenca. Meu pai então disse ao religioso que achava melhor aceitar o chamado de Domingos Perim e de Ângelo Altoé para trabalhar em Venda Nova”.
Na época da decisão do pai, Haydê ainda não tinha completos seis anos, idade que alcançou antes da mudança. Desde os três, ela fazia parte do grupo de crianças que se vestiam de anjinho para participar de alguns rituais da igreja. Um desses era a procissão de domingo. Ela contou que devido a capelinha do casarão não comportar mais os fiéis, a missa passou a ser rezada numa igrejinha de Santo Agostinho distante um quilômetro. “Padre Máximo acordava cedo aos domingos para, mesmo assim, celebrar uma missa na capelinha”.
O padre e os moradores seguiam em procissão levando o Santíssimo, com várias crianças vestidas de anjo acompanhando o cortejo. Todos os domingos o santíssimo ia para a igreja de Santo Agostinho e voltava para a capela do casarão. “Diziam que o modelo das vestes dos anjos feitas pela Penha Prates era húngaro. Eu me lembro disso e sei que na mudança para Venda Nova, as asinhas da minha roupinha foram perdidas’’. Elas foram encontradas no final de 2025 e pessoalmente entregues também ao museu da Fazenda do Centro.
Esse bate papo com a reportagem da Folha Nova foi logo depois que Haydê localizou a roupinha. A pequena veste tinha completado 92 anos de existência e ainda 'estava novinha', como ela se referiu para descrever seu bom estado. No dia 23 de outubro, ela viajou até a Fazenda do Centro para entregar a peça (devidamente lavada e passada) para o acervo do casarão.
Solidariedade e voluntariado: marcas dela na comunidade
Seu espírito solidário encontrou expressão marcante no voluntariado. Haydê foi uma das participantes das primeiras reuniões que culminaram na criação da Associação das Voluntárias Pró-Hospital Padre Máximo, em 1979. Antes mesmo da fundação oficial, já promovia eventos beneficentes em seu próprio quintal, mobilizando a comunidade em prol do hospital. Presença constante e inspiradora, manteve-se ativa durante toda a vida, incentivando, articulando e fortalecendo ações em favor da saúde e do bem comum.
Foi também ponte entre as Voluntárias e importantes instituições e beneméritos. Haydê apresentou o artesanato delas para Dona Jutta Batista da Silva, da Sociedade dos Amigos do Espírito Santo- Sades. Ela se interessou e a relação estreita dela com as Voluntárias resultou em expressivo apoio financeiro, doações e no desenvolvimento de projetos sociais de grande alcance regional.
O apoio e a participação de Dona Haydê como a principal mentora do Voluntariado em Venda Nova são amplamente reconhecidos por personalidades como Marlene Piazzarollo Zandonadi, Mirtes Lorenção Feitosa e Elizabeti Caliman Perim.
“As reuniões aconteciam na casa dela e daí começavam a surgir ideias, demandas e o número de pessoas ia aumentando abraçando a causa. No quintal dela aconteciam eventos como quadrilhas com a finalidade de angariar recursos para o Hospital”, recorda-se Marlene.
Dona Haydê também foi a interlocutora na negociação de envolver um mutirão para transformar o subsolo do posto de saúde para alojar a sede das Voluntárias. “Com o tempo esse local já não comportava o número de Voluntárias e o espaço recebia muita umidade, deteriorando os produtos. A partir daí começamos a negociar com o Hospital uma parte do terreno para construir a própria sede. O projeto foi dela, que fez todo o acompanhamento da obra”, afirma Mirtes.
Marlene e Mirtes também se recordam que, nesse período, Dona Haydê que já conhecia Dona Jutta, a levou para conhecer a sede e os trabalhos das Voluntárias. “Dona Jutta ficou encantada e abraçou a causa ajudando na construção da obra, doação de mercadorias, roupas e produtos além de várias doações em aparelhos diretamente para o Hospital”, recordam.
Quando Sônia Galavote Carnielli passou a integrar as Voluntárias, ela se deparou com Dona Haydê uma mulher muito ágil, muito inteligente e muito dedicada. “Ela sempre procurava inovação, coisas novas para agregar valores ao nosso trabalho, como livros que continham abordados diferentes”, recorda-se Sônia.
“Eu tive a honra e o prazer de trabalhar com ela. Naquela época resolvemos construir a nova sede das Voluntárias, precisávamos de uma pessoa que entendesse de construção para acompanhar a obra. A primeira pessoa que veio na cabeça foi a Dona Haydê. Sentamos, fizemos uma reunião com ela e de imediato ela aceitou e falou que seria um grande prazer, uma grande honra executar esse trabalho à frente da obra. Ficamos muito felizes”, descreve Sônia sobre o período que esteve à frente da diretoria da Associação.
Sônia se recorda que, a partir da afirmativa, a Associação começou um novo desafio. “Tínhamos poucos recursos e tivemos que executar a obra em duas etapas: a primeira com uma equipe de pedreiros e a segunda, quando paramos, Dona Jutta da Silva ficou sabendo e ajudou com um pouco mais de dinheiro para fazer a conclusão”.
A obra teve que ter mutirão, e Sônia se lembra que em alguns pontos do terreno foram necessários aterros. “Quando interrogando Dona Haydê sobre como íamos fazer, ela falou: 'vamos fazer mutirão, campanha. Eu trago dois funcionários, você traz dois da sua casa, dois de outro lugar. Sei que ficávamos sempre envolvidas e foi assim gratificante estar junto com ela e ver a garra que ela tinha e como surgiam as ideias dela diante do problema'”.
Para cada problema que surgia, Haydê tinha uma luz, sugerindo alguma ação eficaz. “Ela planejou muito, cuidou de cada detalhe da Associação. Quando ela pegou o projeto, ela visualizou as posições dos maquinários, de onde ficaria cada equipamento, cada mobília... Ela deu ideias para que o espaço ficasse funcional e fosse bem aproveitado. Tudo muito bem pensado”.
Outro grande legado que teve o toque de Haydê foi a capela. “Não tinha nada, somente o cômodo. Não tinha projeto, nada”. Sônia se recorda da reação de Haydê diante do sonho das Voluntárias. “ Ela falou: não tem problema, vou falar com minha nora, a Cátia, para ela fazer um projeto para gente. Vou conseguir esse projeto voluntário também e depois a gente vai fazer uma campanha”.
E foi o que aconteceu. Sônia se recorda que as Voluntárias fizeram um Livro de Ouro, onde eram anotadas todas as doações para a capela: piso, as luminárias, os bancos, os quadrinhos da Via Sacra. ‘‘Foi tudo doação. Então, a capela foi praticamente toda doação, desde o projeto até a conclusão”, reforça.
Para Sônia nesse processo de construção da capela, ela e as demais voluntárias tiveram mais uma experiência de conviver mais de perto com a garra da Dona Haydê. Uma mulher de atitude e que tinha orgulho da conquista coletiva. Ela sempre agia em sintonia com a diretoria. “Como ela entendia mais de obra, o ela ia dizendo, a gente ia estudando, comprando e fazendo até chegar ao ponto de concluir. Foi maravilhoso participar, conhecer esse lado dela, humano, dedicado. Tenho muita honra de ter conhecido e ter trabalhado com ela. Ela ficará no meu coração para sempre”, conclui.
Na Festa da Polenta e na vida comunitária
Haydê também deixou sua marca na cultura. Participou ativamente da história da Festa da Polenta, desde o primeiro almoço até contribuições que se tornaram símbolos visuais do evento, como os desenhos dos primeiros vestidos das candidatas a Rainha. Suas criações trouxeram cor, beleza e identidade histórica à maior celebração da cultura do imigrante italiano no Espírito Santo.
Penha Alásia Altoé, que voluntariou na Festa da Polenta ao lado de Haydê, traz uma convivência com ela desde os oitos anos de idade. “Eu sempre dava uma fugida para a casa dela e ela me ensinava como fazer os trabalhos domésticos, tanto o de limpeza como o de arrumação, como preparar uma mesa, usar jarros de flores e plantas para decorar uma casa”.
Penha saiu de Venda Nova para estudar, voltou 15 anos depois, e começou ao trabalhar com flores (para arranjos de festas e buquês de noivas) com Isabel Feitosa Caliman, irmã de Haydê. “Haydê estava sempre patrocinando os nossos aprendizados, comprando revistas e até nos levou para Holambra em uma ocasião. Toda vez que ela viajava e via algo de interessante, ela trazia e entregava para a gente. Ela era assim com todas as pessoas, de áreas diferentes de interesse e de profissão”.
Penha e Isabel se envolveram com a decoração da Festa a Polenta, mais especificamente com a decoração da passarela do Desfile de Eleição da Festa da Polenta. Haydê também estava envolvida, com ajudas e sugestões valiosas. Ela orientava sobre uso das cores, uso de toalhas e cortinas”.
Haydê, que começou contribuindo com a cozinha, foi fundamental para a decoração da passarela quanto para a evolução das vestes das candidatas a Rainha da Festa da Polenta. Penha a chamava carinhosamente de “Tia Haydê”, pois tem essa ligação parental com o seu esposo, Sérgio Altoé.
“Tia Haydê foi mais do que uma mulher de seu tempo: foi visionária, solidária, criativa e profundamente comprometida com a comunidade. Ela sempre estimulou e contribui para a evolução das pessoas. Sempre que procurada para resolver alguma questão, ela pesquisava incansavelmente e apresentava alguma sugestão relevante”, finaliza Penha, a profissional que até hoje trabalha com flores e com o que aprendeu junto com Isabel e com Haydê.
Haydê partiu e sua trajetória permanece viva na história, nas construções, nas instituições e, sobretudo, na memória afetiva de todos que tiveram o privilégio de conhecê-la ou de colher os frutos de seu trabalho incansável.







