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Entre mãos femininas e saberes ancestrais: a história do queijo que moldou Afonso Cláudio

Entre mãos femininas e saberes ancestrais: a história do queijo que moldou Afonso Cláudio

Escrito pela jornalista Dinah Lopes e pelo técnico do Incaper Anderson Geraldo Pagotto de Moura, o livro revela como a produção de queijo se entrelaça à formação rural de Afonso Cláudio, lançando luz sobre a presença feminina, que sustentou famílias, preservou saberes e movimentou a economia local ao longo da história

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A relação íntima entre o queijo, os hábitos alimentares e a economia rural de Afonso Cláudio ganha forma e profundidade no livro “Nosso Queijo, Nossa História – Um paralelo entre queijos, etnias e povoamento do território afonso-claudense”, lançado na tarde de 18 de dezembro, no município. A obra, assinada pela jornalista Dinah Lopes e pelo técnico do Incaper Anderson Geraldo Pagotto de Moura, vai além do registro histórico: é um mergulho sensível nas origens, nos costumes e nas pessoas que moldaram o território por meio do trabalho com o leite e o queijo.

O lançamento aconteceu no Salão Paroquial da Igreja Matriz, na Praça Aderbal Galvão, no Centro da cidade, integrando a programação do Dia Especial de Pecuária: Queijos e Recuperação de Pastagens. O evento reuniu produtores rurais, técnicos, pesquisadores e representantes de instituições ligadas ao campo, promovendo reflexões sobre a valorização da cadeia produtiva do queijo e práticas sustentáveis na pecuária.

Resultado de uma extensa pesquisa de campo, o livro nasceu do contato direto dos autores com comunidades rurais do município. Ao percorrer propriedades, ouvir histórias e registrar memórias, Dinah e Anderson buscaram compreender por que o queijo se consolidou como elemento central da alimentação, da cultura e da economia local desde o período colonial. A investigação revelou não apenas dados, mas narrativas de pertencimento, resistência e identidade.

Ao todo, foram identificados 303 produtores de queijo, em sua maioria voltados à produção para consumo próprio, além de 11 queijarias com fins comerciais. No entanto, mais do que números, o que emerge das entrevistas é a diversidade de etnias que contribuíram para a construção da cultura queijeira afonso-claudense e, sobretudo, o protagonismo das mulheres nesse processo.

Dinah observa que nesta caminhada rural para a pesquisa ainda se percebe que desigualdade de gênero continua marcante no meio rural, onde na maioria das vezes o trabalho das mulheres é visto como secundário ou como ajuda mesmo quando ele gera renda que muitas vezes fica sob o controle dos maridos. “Um exemplo está nos queijos que não são percebidos como tradição e nem como valor econômico. São mais um trabalho feminino sem o devido reconhecimento”.

Ao ouvi-las, Dinah e Anderson perceberam a surpresa delas em serem procuradas para falar de um trabalho rotineiro na cozinha. “Após a publicação, a cada entrega que fazemos, é visível a reação de espanto e alegria delas em ver suas histórias estampadas nas páginas do livro”, afirma a jornalista, que ainda acrescenta: “é importante e a gente precisa criar espaços para ouvir mais essas mulheres, contar e registrar as histórias delas para desconstruir essa invisibilidade feminina”, finaliza.

Muitas vezes ausentes dos registros oficiais, elas aparecem no livro como figuras centrais: mulheres que ordenhavam, coalhavam, moldavam e curavam o queijo; que garantiam alimento à mesa, renda à família e continuidade a um saber transmitido de geração em geração. Em períodos de escassez ou isolamento, foram elas que transformaram o leite em sustento e o conhecimento doméstico em pilar econômico. O livro, ao dar voz a essas histórias, rompe o silêncio histórico e reconhece o papel feminino como estruturante da vida rural.

Com 155 páginas, a publicação reúne depoimentos, referências bibliográficas, gráficos, um panorama da história do queijo no mundo e no Brasil, além de receitas tradicionais que ajudam a preservar a memória afetiva ligada à produção. O livro traz ainda um artigo do engenheiro agrônomo Pedro Cani, idealizador do Concurso Estadual do Queijo, no qual ele analisa as razões do baixo consumo do produto no Brasil e no Espírito Santo e defende o fortalecimento da cultura queijeira no Estado, processo que, segundo ele, pode seguir caminho semelhante ao dos cafés especiais, hoje reconhecidos nacionalmente pela qualidade.

A programação do Dia Especial de Pecuária contou com recepção dos participantes, abertura oficial, apresentação dos autores e colaboradores da obra, fala de representantes dos queijeiros entrevistados, espaço para perguntas e a palestra “Nutrição mínima para regeneração de pastagem degradada”, ministrada por André Guarçoni, doutor em Solos e Nutrição de Plantas e pesquisador do Incaper.

A impressão do livro teve o apoio do Sicoob Sul-Serrano e da Associação Turística Rota Vale do Empoçado. O evento foi realizado pelo Incaper, Inovagro, Secretaria da Agricultura, Abastecimento, Aquicultura e Pesca- Seag e Fundação de Amparo à Pesquisa e Inovação do Espírito Santo- Fapes.

Ao resgatar a história do queijo em Afonso Cláudio, a obra também resgata as mulheres que, com mãos firmes e sensibilidade cotidiana, ajudaram a construir a identidade rural do município. Um livro que honra o passado, valoriza o presente e inspira o futuro da cultura queijeira capixaba.

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