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Engenharia diagnóstica: quando a prevenção vale ouro

Engenharia diagnóstica: quando a prevenção vale ouro

Daniele Dordenoni, engenheira civil especialista em perícias e laudos técnicos, explica porque a engenharia diagnóstica é essencial para garantir a saúde das edificações e para evitar prejuízos tanto para construtoras quanto para proprietários

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Aos 31 anos, Daniele já se destaca em um dos segmentos mais estratégicos - e ainda pouco conhecidos - da engenharia: a engenharia diagnóstica. É essa especialidade que identifica problemas antes de se transformarem grandes transtornos, elabora laudos técnicos precisos e determina reparos, prazos e responsabilidades. Na prática, Daniele atua como uma “médica das edificações”, capaz de prever riscos, orientar correções e oferecer segurança técnica e jurídica tanto para construtoras quanto para proprietários.

O trabalho ganhou ainda mais relevância com a aprovação, pela Comissão de Constituição e Justiça e de Cidadania- CCJC, do projeto que cria a inspeção predial obrigatória, além do aumento da exigência de laudos técnicos na entrega e recebimento de obras e na resolução de conflitos entre proprietários e construtoras envolvendo vícios construtivos.

Daniele é responsável por identificar manifestações patológicas nas edificações (como infiltrações, trincas, desplacamento de pisos, falhas estruturais, defeitos elétricos ou hidráulicos) e por elaborar laudos técnicos completos e fundamentados. Esses documentos especificam os reparos necessários, os prazos adequados e a responsabilidade técnica sobre cada anomalia.

Além disso, Daniele auxilia construtoras na entrega dos empreendimentos em conformidade com as normas técnicas, reduzindo riscos jurídicos, evitando retrabalhos e prevenindo conflitos futuros com moradores. Não por acaso, essa atuação é ainda mais essencial na entrega de condomínios residenciais e comerciais, onde existem múltiplas unidades e grande potencial de ocorrências.

Daniele integra ainda a Inspetoria do Crea-ES em Venda Nova e faz parte da diretoria do Ibape-ES, instituições que reforçam sua credibilidade técnica e sua atuação no campo pericial.

 

Quando procurar esse tipo de profissional?

A resposta é direta: ao primeiro sinal de problema. Síndicos, administradores e proprietários devem recorrer à engenharia diagnóstica sempre que identificarem qualquer indício de anomalia. Conforme a NBR 5674, cabe ao síndico garantir que a edificação receba inspeções periódicas, siga o plano de manutenção e adote práticas preventivas.

Daniele avalia o que está acontecendo, identifica a origem da anomalia, estima custos de reparo e formaliza tudo em um laudo técnico, documento essencial para manutenção, para tratativas com construtoras e para processos judiciais.

Mas essa avaliação não deve ocorrer apenas quando surgem problemas. Ela também é indispensável no ato da entrega e recebimento de uma obra. “Quando a obra termina, o laudo protege todos os envolvidos”, explica.

A construtora: porque demonstra que o empreendimento foi entregue conforme às normas e boas práticas.

O proprietário: porque garante transparência e comprova que o imóvel está em condições adequadas, incluindo eventuais vícios cobertos pela garantia.

 

O que é a inspeção predial e como funciona?

A inspeção predial é uma avaliação técnica completa do estado de uma edificação. É preventiva e essencial para garantir segurança, prolongar a vida útil do imóvel e atender às normas e legislações vigentes.

A inspeção engloba todos os sistemas da construção: estrutura, fachadas, telhado, elétrica, hidráulica, impermeabilização, acessibilidade, incêndio, revestimentos, equipamentos e outros elementos importantes.

Seguindo uma metodologia estruturada para garantir uma avaliação abrangente, a inspeção predial começa pelo levantamento de dados e documentos, além de uma entrevista com o gestor ou síndico, momento em que é realizada a anamnese da edificação. Em seguida, Daniele realiza a vistoria in loco, conduzida de forma sistêmica.

“Trata-se de uma inspeção visual detalhada de todos os sistemas construtivos, com o objetivo de identificar o estado geral da edificação e verificar se seus sistemas atendem aos aspectos de desempenho, funcionalidade, vida útil, segurança, conservação, manutenção, utilização e operação, considerando também as expectativas dos usuários”, explica Daniele.

Após a vistoria, é feita a classificação quanto à origem das anomalias e das falhas constatadas, seguida das recomendações técnicas necessárias para preservar ou recuperar o desempenho dos sistemas construtivos, componentes e equipamentos da edificação afetados. Essas recomendações são organizadas em patamares de prioridade, auxiliando na definição de um plano de ação eficiente.

Na etapa final é elaborado o Laudo de Inspeção Técnica de Edificação- Lite, documento formal que apresenta todas as constatações, as prioridades de intervenção e os prazos recomendados para regularização, acompanhado da Anotação de Responsabilidade Técnica- Art.

“A inspeção predial é, portanto, uma ferramenta estratégica de gestão de manutenção da edificação, essencial para prevenir acidentes, valorizar o patrimônio e evitar problemas judiciais decorrentes da falta de manutenção”.

 

Porque prevenir é mais barato

Os acidentes em edificações que ganharam repercussão no Brasil e no Estado serviram para mostrar o quanto o laudo e a inspeção predial podem evitar tragédias. Ainda assim, muitas pessoas só procuram um engenheiro quando o problema já se instalou e o conflito com a construtora está em andamento. Na prática, isso significa mais custos, mais transtornos e, em muitos casos, prejuízos que poderiam ter sido evitados.

Quanto mais tarde um problema é identificado, maior é o custo para corrigi-lo. Este é um princípio amplamente conhecido no setor de engenharia.

Na fase de projeto, um erro pode ser corrigido com custo mínimo. Durante a execução da obra, esse mesmo erro pode custar até cinco vezes mais. Já durante a manutenção preventiva, quando o edifício está em uso, o custo aumenta, mas ainda é controlável. No entanto, quando a falha só é identificada tardiamente e exige manutenção corretiva, o gasto pode chegar a até 125 vezes mais, dependendo da gravidade, sem contar os riscos estruturais e os transtornos aos usuários.

Esse cenário explica porque muitos advogados já orientam seus clientes a apresentar um laudo técnico logo no início da demanda. É nesse momento que a engenharia diagnóstica entra em ação, analisando a origem do problema, quantificando danos e indicando tecnicamente os próximos passos.

Na esfera judicial, essa atuação se torna ainda mais decisiva. Quando o juiz solicita uma perícia, cabe ao engenheiro responder perguntas fundamentais: Qual é o problema? Qual a origem? Quem é o responsável? Quanto custa reparar? E qual é a solução técnica mais adequada? Sem essas respostas objetivas, não há decisão segura.

A prevenção, portanto, é sempre mais barata, não apenas financeiramente, mas também em termos de tempo, segurança e tranquilidade para todos os envolvidos.

 

E a legislação?

Ainda não existe uma lei federal específica em vigor para inspeção predial, mas o Projeto de Lei 6014/2013 avança no Congresso. Enquanto isso, a NBR 16747 (2020) e a Norma de Inspeção Predial do Ibape (2025) estabelecem as diretrizes técnicas para a realização de inspeções prediais em todo o país.

Além disso, diversos estados e municípios já possuem legislações próprias que tornam a inspeção obrigatória, especialmente para edificações mais antigas ou de uso coletivo.

Adicionalmente, quando a engenharia diagnóstica se insere em contextos periciais como em disputas judiciais, apuração de responsabilidades ou avaliações técnicas formais aplica-se também a NBR 13752 – Perícias de Engenharia na Construção Civil, que define os procedimentos, requisitos, metodologias e diretrizes para a atuação pericial. Essa norma orienta a elaboração de laudos periciais, garantindo rigor técnico, rastreabilidade das informações e padronização das análises.

 

*A engenheira civil Daniele Dordenoni construiu sua trajetória em uma área pouco conhecida pelo público, mas essencial para a segurança e o bom funcionamento das edificações: a engenharia diagnóstica. É essa especialidade que garante que prédios, casas e condomínios sejam seguros, duráveis e estejam em conformidade técnica antes, durante e depois da entrega. Proprietária da D'Engenharia e perita judicial em todo o Espírito Santo, Daniele auxilia o Poder Judiciário na resolução de conflitos envolvendo vícios construtivos, responsabilidade civil e avaliações técnicas. Também é inspetora do Crea-ES em Venda Nova e integra a diretoria do Ibape-ES, reforçando sua imparcialidade e expertise em casos complexos.

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