
Festa de São João: Varais de bandeirolas, quadrilha e fogueira gigante
Comunidade mantém uma tradição que ultrapassa o centenário e continua encantando moradores e visitantes
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Menos de três semanas antes de iniciar a programação, a coordenação da Festa de São João recebeu a reportagem da Revista Folha Nova. O encontro foi no final de um dia em que foram puxados 60 metros cúbicos de eucalipto do cerca de 80 necessários para a montagem da fogueira, uma das grandes atrações do evento. O burburinho entre os voluntários da diretoria e a confecção das bandeirolas pela equipe da decoração se revelaram como uma demonstração do quanto a comunidade se entusiasma e se entrega para a realização da Festa.
O evento que começa a ser organizado em maio envolve 150 voluntários divididos entre as equipes do financeiro, das contratações de shows, da cozinha, das compras, da captação de patrocínios... “Têm ainda os voluntários que circulam por todas as equipes, ajudando naquilo que se revelar mais urgente ou resolvendo problemas de última hora”, afirma Márcio Galavote Pinto, presidente da Associação Pró-Melhoramento de São João de Viçosa, entidade promotora do evento.
“No primeiro momento de nossa organização, definimos as principais contratações e atribuímos as responsabilidades dos voluntários, que são designados para fazer parte de determinada equipe conforme e sua aptidão e vontade”. Márcio reforça que todo trabalho é feito em conjunto, com os coordenadores de equipe tomando as decisões e as compartilhando com os demais coordenadores e membros da diretoria. “Tudo precisa funcionar de forma sincronizada”.
Com a participação de Jairo Sossai, o vice-presidente, e também de Edmo Venturim, um voluntário sempre próximo de atuação ativa, Márcio fala da importância da festa para a comunidade e de como eles retribuem esse apreço. “Cuidamos do cemitério, da capela mortuária e do ginásio de esportes”, disse ao explicar que esse zelo se traduz em manutenção e melhorias, como a recente ampliação da capela.
Famosa pela fogueira frondosa e pela quadrilha que envolve um grande número de participantes, a Festa de São João mantém as atrações tradicionais. Os organizadores não sabem dizer quando as festividades começaram, mas arriscam em calcular que tem pelo menos uns 120 anos.
Esse palpite se dá pela idade da igreja, que ali foi implantada há 121 anos. “A festa junina sempre acontecia junto à programação religiosa. Hoje, apesar de paralelas, tem gestões separadas, embora também sejamos voluntários da igreja”, disse se referindo aos membros da Associação. “Embora católicos, todos os serviços que prestamos estão abertos às pessoas de todas as denominações religiosas”.
Voltando às festividades, a organização inovou e nas duas últimas edições fez uma cobertura na rua em frente ao ginásio de esporte, aumentando a área coberta da Festa. Essa época é a mais fria do ano e o calor da fogueira não é suficiente para manter o conforto térmico durante toda a programação e nem em todos os espaços.
Mesmo com a extensão da cobertura, a apresentação da dança continua dentro do ginásio de esportes. Ensaiada e cantada por Cleto Venturim, a dança já tem definidos os pares e a coreografia pelo menos 30 dias antes da apresentação. Márcio explica que uma pessoa fica responsável pelas inscrições, que permanecem abertas até que todas as vagas sejam preenchidas. Fica entre 20 a 32 pares e sempre alguém fica de fora devido à alta procura.
Fogueira
A fogueira de São João, sempre erguida do outro lado da rua e em frente ao ginásio de esportes, consome em torno de 80 metros cúbicos de madeira. De acordo com Márcio, 35 metros são somente destinados à estrutura, que é parte do trançado que compõe o lado externo.
Com uma altura que já chegou a 7,8 metros de trança, a fogueira se mantém mais ou menos nessa média de altura. A estabilização desse porte é devido à falta de espaço de festa adequado, com um ponto estratégico designado para continuar gerando segurança em volta da fogueira, mesmo que ela cresça mais. Esse espaço ideal, explica Márcio, seria uma espécie de centro de eventos. “Já existe o terreno que será destinado à essa finalidade comprado pela Prefeitura. Gostaríamos que se chamasse 'Fogueirão'”, sugere Márcio.
“A fogueira é feita de forma que ela queime de dentro para fora. A madeira da parte externa é mais verde, para que queime mais devagar do que as ficam dentro, que são mais secas. Existe uma técnica para montar a fogueira de forma que ela vai queimando e as brasas caindo para dentro”.
Acesa por volta das 18 horas do domingo da Festa, a fogueira permanece ativa durante 12 horas, sendo que as chamas altas e mais bonitas perduram por três horas. Esse é o tempo suficiente para o espetáculo de uma das noites mais frias do ano.
Os responsáveis pela fogueira são Jairo Sossai e Edmo Venturim. No dia da montagem, muitos homens (com menos ou mais prática) se voluntariam para o trabalho que, com a ajuda de uma groa, demora seis horas para ser concluído. Antigamente, sem o auxilia da tecnologia, eram necessário 11 horas para deixar o atrativo pronto.
Famosa pela perfeição na montagem, a fogueira atraiu a atenção de organizadores de outras festas pela região. É o caso do Pati, em Brejetuba, que recebe a ajuda da equipe de São João para montar a fogueira da festa de sua comunidade
A Festa
Promovida pela comunidade, a Festa revela o perfil de moradores festivos e unidos ao ponto de se dedicarem para criar um evento cheio de personalidade. De acordo com Márcio, a primeira festa do pós-pandemia deu um grande salto de público.
“O problema é que a cozinha é pequena e, devido à estrutura insuficiente, fizemos parceria com restaurantes da cidade para fornecer o prato do almoço de domingo. “Só no domingo do ano passado cerca de 5 mil pessoas participaram da programação”.
Mesmo com o interesse da comunidade, o que proporciona voluntários na fila de espera para ajudar, a estrutura é insuficiente, o que é superado pela criatividade e boa vontade dos moradores. “A construção de um espaço adequado vai em breve solucionar essa demanda”, acredita o presidente.
Márcio mora na comunidade desde 2008 e logo que se mudou para lá foi convidado para ser voluntário na Festa de São João. “As pessoas daqui estão sempre abertas às novas adesões, o que favorece a reciclagem de lideranças e de ideias. É a experiência unida às inovações mantendo a festa em evidência”.
Novidade - Na versão de 2025, a Festa lançou a “Tardezinha com Show de Pagode” com a caminhada com fogões móveis da comunidade de Bicuíba até a sede de São João.
Passeio ciclístico
Com Atílio Pizzol como coordenador, o pedal de São João acontece pela 24ª vez na manhã de sábado da programação, percorrendo a Rota da Ferradura. Na versão de 2024, 700 ciclistas se inscreveram.
O passeio começa logo que as inscrições se encerram. Por volta das 8 horas os ciclistas partem de frente do ginásio de esportes. Eles tomam a rota pela entrada ao lado do Posto Venturim e fazem a primeira parada na Fazenda do Incaper, local onde são aguardados por uma mesa farta de frutas e água.
A parada seguinte é na propriedade de Cormélio Ambrosim. A família disponibiliza a estrutura da propriedade para o preparo de caldo de cana, que é servido com pasteis de diversos sabores. Durante esse processo, a organização sorteia prêmios, que são prendas doadas pelo comércio de São João de Viçosa.
Sem o Nilo Bragatto
A Festa de São João de 2025 é a primeira sem o Nilo Bragatto, uma figura atuante e querida pela comunidade, que faleceu no dia 7 de maio último, faltando poucos meses para completar 100 anos de idade.
A diretoria é unânime em afirmar que ele era uma pessoa de extrema importância em todos os setores da comunidade e da festa: na montagem da fogueira, na dança, no catecismo, no futebol... O ministro da palavra era um homem de fé e de uma animação fora do comum.






